A pandemia e o dia depois de amanhã

Nassin Taleb, em suas entrevistas, não considerou a pandemia de Covid-19 um cisne negro (termo criado pelo autor para um evento altamente improvável), uma vez que os vírus vindos da Ásia já eram conhecidos.

Teses à parte, fato é que o Covid-19 teve efeitos de grande proporção e foi negligenciado por governos, subestimado pela ciência e surpreendeu o mundo, por sua natureza pouco conhecida, amplitude de contágio e letalidade complexa.

A pandemia, de escala global, provocou praticamente a quebra da economia mundial e espalhou o medo.

Assim, o coronavírus não parece ser apenas mais um vírus vindo da Ásia, ou de onde quer que seja… É o evento que já mudou paradigmas e a vida de todos.

Quando vamos sair desse evento, não sabemos, mas já temos certeza de que nosso modo de vida vai mudar e muitas coisas não serão mais como antes.

Valores humanos. O sentido de liberdade, de solidariedade, de individualismo, de sucesso, de prioridades, de felicidade e finitude mudarão. Uma oportunidade para perceber um sentido da vida, esse valor etérico, belo, cruel e indefinível.

A percepção da política e administração pública. Está bem claro que os sistemas políticos e a administração pública perderam credibilidade. Há um sentimento de repúdio àquilo que parasita a sociedade e que quer se manter no poder, há muitas décadas e desde sempre.

Um estilo de vida minimalista. Sim, menos pode ser mais. A busca por uma vida simples, primordial e de qualidade, onde o estudo, o trabalho e o acúmulo de patrimônio e investimento só fazem sentido quando nos libertam. Queremos mais tempo para a família, para curtir os pets, as viagens, a leitura e o que realmente importa.

Trabalho remoto, educação à distância e os teletudo. A pandemia do Coronavírus impôs uma realidade sanitária e acelerou a opção remota de trabalho, para as atividades compatíveis. Trabalhadores, empresas e tomadores de serviço perceberam as vantagens de tempo e custos. A educação remota também crescerá muito e passará a ser vista com menos preconceito. Reuniões e atendimento virtual em todos os setores.                        

Deliveryzação. Entrega-se de tudo, de comida a eletrodomésticos. A pandemia trouxe um esvaziamento de bares e restaurantes e um aumento vertiginoso das entregas.                          

Abrigo. As famílias passaram a buscar casas mais espaçosas, com quintal, em loteamento fechado, a fim de se protegerem do vírus, ter espaço para as crianças brincarem e viabilizar o trabalho em home-office. 

A realidade tecnológica. A ciência humana evoluiu, mas não priorizou o que realmente importa. Brincamos com reatores e ogivas nucleares. Queremos conquistar Marte e depois Júpiter, entretanto, nos descobrimos frágeis e despreparados para enfrentar um vírus.                            

Consumo de pós-guerra. Poderemos ter algo como um sentimento e uma retomada econômica de pós-guerra. A chegada da vacina trará uma vontade de se aproveitar mais a vida, de viajar, de consumir, de se reunir com amigos, de beber e comer, de construir um lar, de constituir família.

O Direito, como ciência do regramento social, já está sendo impactado em todas as esferas dessa transformação. Caberá ao advogado e demais operadores a percepção dessa mudança, na defesa do direito, da vida e solução dos conflitos.